Cheguemos ao ponto. O livro era bom, o livro era perfeito. Eu podia tê-lo até hoje, como edição para colecionadores. Mas não. Um brutamontes roubou de mim logo no quarto mês após a aquisição do mesmo. E, na minha frente, jogou em um bueiro. Nunca mais vi o tal livro. Poderia ter comprado outro, mas não. Preferi degustar esse sofrimento que me fez parecer o quanto a vida é injusta para o ser humano.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Crônica II
Eu tinha um livro. Folhas amareladas, capa acinzentada. Me acompanhava em todas as horas. Principalmente nos momentos tristes e tediosos. Era meu companheiro favorito. Esse livro me provocava as sensações pseudo eruditas mais variadas. Desde certa intriga ao ver os protagonistas discutindo ironicamente, até largos risos com o final supostamente feliz. Era sempre o mesmo sorriso cada vez que eu terminava de ler, como se eu esperasse um final diferente toda vez. Apesar de saber que era igual, eu não me decepcionava. Era uma alegria maior não precisar ter surpresas ruins ao final do livro. O marca páginas era um guardanapo, ainda sujo de gordura de batata frita, degustada na segunda vez que o livro fora lido. E aquela já era a quinta vez. A quinta, em menos de três meses. As vezes me perguntava quando esse vício iria acabar. Mas não era vício que fazia mal. Este não. E, apesar to vocabulário das páginas ter sido praticamente decorado, as palavras pareciam ter um significado diferente, novo, a cada vez que o lia novamente. Alguns segundos descritos em capítulos fazia-me valorizar cada instante da vida, por mais ínfimo que fosse. O enredo, em si, não importa. Mais uma história de aventura. Ou talvez um romance. Espanta-te eu não me lembrar do enredo? É porque talvez eu não queira me lembrar. Se eu fosse contar o enredo, ia parecer mais uma novela fútil do que uma descrição viva de situações.
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